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“Voando sobre o Alentejo”

  • há 1 dia
  • 6 min de leitura

 

António Dâmaso Chainho nasceu em São Francisco da Serra, Santiago do Cacém a 27 de Janeiro de 1938.

Mestre Chainho, como era carinhosamente conhecido por amigos e admiradores, génio da Guitarra Portuguesa e Amigo fraterno – foi sócio fundador do CEDA – Centro de Estudos Documentais do Alentejo, onde solidariamente integrou sempre os órgãos sociais, sem qualquer destaque, e fraternalmente ofereceu espectáculos, para angariação de fundos, tanto à Casa do Alentejo – quando integramos a Direcção – e ao CEDA. Partiu fisicamente no dia que completava 88 anos. Estará sempre nos nossos corações.

Apresentamos uma súmula de encontros com o Mestre, registados em 2001, na «Revista Alentejana», onde foi capa da edição e posteriormente, na «Memória Alentejana».

 

“Era maravilhoso estar ali junto à mó do moinho a tocar guitarra”

 

A propósito da sua infância diz-nos: “Quando comecei a tocar guitarra, aos cinco ou seis anos, lembro-me de levar a guitarra e às vezes passar a noite no moinho do meu avô. Era maravilhoso estar ali junto à mó do moinho a tocar guitarra. Tinha uma irmã com mais um ano que eu, que também tocava guitarra. “

 E prossegue: “Ainda me lembro quando era miúdo, o meu avô dava-me um tostão para ir buscar um cântaro de água ao chafariz, e eu comprava rebuçados. Vivia no café que o meu pai tinha, naquele ambiente onde se cantava muito à «desgarrada», ao «despique», fruto dessa via poética impressionante, que, como sabe caracteriza o Alentejano. Naquele ambiente senti-me desde muito cedo atraído pela guitarra. Comecei por tocar a guitarra do meu pai, mas como era muito pequeno tinha dificuldade e o meu pai ofereceu-me uma «requinta», que era um instrumento mais pequeno, próprio para assenhoras tocarem, pois tinha um braço mais estreito. O meu pai tocava muito bem, tocava tudo, mas eu comecei a evoluir, aprendi a técnica a minha custa. A partir dos 11 anos, acompanhava a minha mãe, que tinha uma voz lindíssima, e aos 14 anos já tocava mais que o meu pai. Mas no ano seguinte a minha mãe morreu numa operação e estive dois anos sem tocar. Quando recomecei aos 17 anos já não me lembrava praticamente de nada. Mas recuperei tudo em pouco tempo.”


Moçambique e o início da carreira em Lisboa


Depois seguiu-se o serviço militar no Norte de Moçambique, nas vésperas do início da guerra colonial. Fez programas semanais na Rádio da Beira e acompanhou artistas. Dois anos depois de regressar à sua aldeia, a pretexto de tirar a carta de condução de pesados, instala-se definitivamente em Lisboa. É contratado para tocar na “Severa”, mas poucos dias depois o guitarrista Jorge Fontes convida-o para participar num trio de guitarras; no dia seguinte participa com ele num programa na televisão, o que naturalmente deixa a família orgulhosa, vaidosa, por oito dias depois de sair da aldeia estar na televisão, como nos diz. Em 1968/69 é convidado pelo director da Emissora Nacional a formar um conjunto de guitarras. Na televisão acompanhou nomes grandes do fado como Lucília do Carmo, Alfredo  Marceneiro, António  Mourão, Ada de Castro, Hermínia Silva, Teresa Tarouca, Carlos do Carmo, Frei Hermano da Câmara, Manuel de Almeida, entre outros. Faz programas na televisão e torna-se o primeiro guitarrista a ser produtor na Rádio Triunfo e abre uma casa de fados em Cascais, em sociedade com o Rodrigo. Grava então vários EPs: o primeiro, para a Rapsódia, o instrumental «Guitarradas, por António Chainho» (1967), seguindo-se lhe, «Solos de Guitarra. Chainho»” (1968 - Editora Estúdio), «Guitarras de Coimbra» (1971 – Tecla) e  «António Chainho. Guitarra Portuguesa» (Alfabeta – 1973).


Zeca Afonso e a participação no Fura-Fura, e o início do percurso a solo


 “Eu sou um guitarrista, um músico e não renego a minha origem que vem do fado, mas gosto de ir ao encontro de novos caminhos, novas sonoridades. Isso não desvirtua a Guitarra, antes pelo contrário, dá-lhe uma maior projecção.”

Esta busca constante de Mestre Chainho, leva-nos a Zeca Afonso: “O Zeca Afonso tinha uma casa na minha aldeia, em São Francisco da Serra, às vezes encontrávamo-nos e ele uma dessas vezes disse-me: ‘um dia gostava de fazer uma coisa com fado.’ Acabei por participar no LP «Fura-Fura».(1979)” 

Tendo-se dedicado a uma carreira quase exclusiva a solo desde 1992, depois de ter gravado o primeiro LP em «Guitarradas» (Rádio Triunfo, 1980) reeditado em CD (1999),  actua em recitais por todo o mundo: a solo ou dividindo o palco com Paco de Lucia ou John Williams; em concertos isolados ou em festivais dedicados à guitarra como aconteceu em Córdova.

Inicia uma discografia em nome próprio com o álbum «Guitarra Portuguesa» e um segundo disco gravado com a Orquestra Sinfónica de Londres, The London Philharmonic Orchestra (Movieplay, 1996) iniciando uma carreira discográfica, exclusivamente composta por temas originais. Depois grava um disco, como nos diz “Foi um trabalho muito bem aceite e que vendeu muitíssimo bem, mas a rádio passava pouco discos instrumentais e então o responsável da minha editora propôs-me gravar um disco com vozes femininas: Teresa Salgueiro, Filipa Pais, Elba Ramalho, Marta Dias, Nina Miranda e Ana Sofia Varela. Assim nasceu «A Guitarra e Outras Mulheres» (1998). nesse ano de mudança. “

 

“Sou um grande apaixonado pela Guitarra Portuguesa e gosto de percorrer com ela novas caminhos e sonoridades musicais” a propósito do novo disco «LisGoa»

 

O Mestre explica-nos a mudança: “Até então não havia nenhum registo de um cantor a acompanhar instrumentos. Foi a grande aposta da editora e chegou a disco de platina”. E explica-nos como cada tema surgiu, feitos propositadamente para cada voz, onde adivinhamos uma grande cumplicidade e envolvimento. Produzido por Andrés Levin – um dos músicos e arranjadores em termos de sonoridade mais competentes dos Estados Unidos, como nos diz o Mestre Chainho. “Quando este chegou aos Estados Unidos, mostrou o trabalho a outro grande músico Bruce Swiden, já proposto 17 ou 18 vezes para o Grammy, ele gostou tanto que quis co-produzir e assim aconteceu. E propôs que este trabalho fosse candidato ao prémio Grammy. Foi a primeira vez na história da música portuguesa foi proposto para um Grammy.”

Entretanto saiu «Lisboa-Rio», (2000) acompanhado, desta vez, pelas vozes de Ney Matogrosso, Paulinho Moska, Virgínia Rodrigues, Celso Fonseca e Jussara Silveira, e onde encontramos temas,  poemas ou músicas, da autoria de Caetano Veloso, Vinícius de Moraes, Gilberto Gil ou Chico Buarque, um disco marcante na carreira do Mestre Chainho e na música portuguesa, numa viagem musical e poética por outras sonoridades e  latitudes. 

Três anos depois surge «António Chainho e Marta Dias ao vivo no CCB» tornando-se Marta Dias uma parceira privilegiada nos seus concertos. No álbum, gravado ao vivo, onde é a única vocalista presente, com registos no jazz, na soul ou até da música brasileira, mas sem esquecer o fado.

Participou em importantes projectos musicais como Fado Bailado – Rão Kyao , Red Hot Lisbon com KD Lang ou Rough Guide Compilação.

Incansável na reinvenção da guitarra portuguesa e sempre pronto a apostar nos novos valores, António Chainho, deu oportunidade a uma nova voz revelação do Fado, Isabel Noronha. Juntos apresentam há mais de três anos um espectáculo onde a mestria da Guitarra Portuguesa se alia à voz única de Isabel. 

«LisGoa», é um novo trabalho nesta longa viagem que o levou a África e ao Brasil. “Diz-nos: Desde há dez anos tenho vindo a tocar e a ensinar guitarra portuguesa em Goa, Bangalore, Nova Deli. Fiz amizades e as cumplicidades musicais surgidas levaram-me a percorrer novos caminhos onde acabei por juntar à guitarra portuguesa os sons da citar ou o ritmo das tablas. E a música, como os afectos, são linguagens universais que acabam por vir ao de cima. O resultado é este novo disco «LisGoa», com a participação de talentosos e virtuosos músicos. 

O Mestre dedicou-se ao ensino da guitarra portuguesa na sua terra, Santiago, onde há um auditório com o seu nome, noutras terras do Alentejo, do país e do mundo, nunca esquecendo a sua origem, tocando quase sempre o belo instrumental de sus autoria “Voando sobre o Alentejo”.

As afinidades ancestrais com o Extremo Oriente, onde se “sentia em casa” nas muitas e prolongadas estadas na China e no Japão em concertos, ensinando, terão sido confirmadas com a descoberta, através da árvore genealógica, de um ascendente de nome Chai, comerciante natural da China que se terá estabelecido na região vizinha de Sines, no século XVI.

Depois de «Entre Amigos» (2012) e «Cumplicidades» (2015), o derradeiro trabalho “O Abraço do Guitarra” (2024), que na «Memória Alentejana» destacou em pré-publicação.

Foi distinguido com o Prémio Bordalo, pela Casa da Imprensa (1998), Medalha de Honra pelo Município de Santiago do Cacém (2005); Medalha de Mérito (Grau Ouro) pela cidade de Lisboa (2012) e Comendador da Ordem do Infante D. Henrique, pelo Presidente da República (2022).

Voltaremos certamente a encontrar-nos um dia de Primavera nos campos floridos em redor de São Francisco da Serra, com o nosso Litoral Alentejano no horizonte.

Atá lá, um abraço maior do que o vento, Mestre Chainho!

 

Eduardo M. Raposo

Foto: Alex Gandum

 

 

 
 
 

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