Das palavras aos atos


Durante o último ano e meio muito se falou do trabalho em casa e de como as relações de entre trabalhadores e empresas estão a mudar, para além das alterações nos locais onde se trabalha. Essa alteração nas relações laborais afetou praticamente todos, de um ou de outro modo, e revelou que, apesar das dificuldades e dos constrangimentos que o trabalho em casa sempre tem, é possível manter as empresas a funcionar a partir de diferentes locais de trabalho.

Esta situação revelou também uma outra coisa: a atração de pessoas para as empresas é hoje uma questão a ser tratada a um nível global e não ao nível local. Hoje, em algumas funções, as empresas podem contratar uma pessoa que está sentada num qualquer local, o que significa que a procura de talento mudou de paradigma, isto é, passou de local a global.

Nas últimas eleições autárquicas, muitos dos candidatos, principalmente aqueles que se localizavam nos distritos e concelhos do interior do país, fizeram desse modelo de trabalho uma bandeira dos seus projetos políticos, no sentido de atraírem para os seus concelhos gente talentosa que pode trabalhar a partir do interior do país e servir as empresas onde quer que elas se situem.

Contudo, para levar estas pessoas para o interior do país é necessário mais do que palavras. Essas, leva-as o vento! São necessárias ações que mostrem a esse público-alvo os diferentes locais que pode oferecer para trabalhar e essas ações têm que ser feitas nos sítios certos de modo a captar essas pessoas e no momento certo.

A atração de pessoas do interior para o litoral é um processo normal que tem acontecido ao longo das últimas décadas, por isso, a inversão deste processo não vai ser uma tarefa fácil, e vai exigir ações concretas e um esforço adicional do político local para que algo aconteça e a situação se altere. Este processo de alteração de mentalidades não é algo que se possa fazer de um dia para o outro. É algo que necessita de tempo, de ter as pessoas certas a conduzir este processo e de muita persistência.

Um dos eventos que, de facto, têm como principais participantes pessoas que podem trabalhar a partir de um qualquer local para uma qualquer empresa, ou mesmo prestar serviços a partir de um local distante, é a WebSummit, que este ano teve lugar em Lisboa entre os dias 1 e 4 de novembro. Aqui, estão presentes pessoas de todo o mundo, ligadas a questões tecnológicas, e todas elas podem trabalhar a partir de um qualquer local.

Para além das pessoas ligadas às tecnologias, o evento atrai também um número significativo de investidores, gente que pode financiar projetos que estão no início e que podem ter um potencial de crescimento. Também estes investidores podem ser um ponto de contacto importante para ajudar projetos no interior do país, porque eles procuram oportunidades de negócios em qualquer local, por isso, os contactos entre o poder político e estas pessoas só pode ser visto como algo positivo, uma vez que investidores é algo com pouca relevância no interior do país.

Porém, este acontecimento que este ano de 2021 juntou mais de 40 mil pessoas, teve pouca presença dos responsáveis pelo interior do país, com honrosas exceções do município do Fundão e da Região Autónoma dos Açores, o que é algo difícil de entender porque esta é uma oportunidade única em cada ano para estabelecer contactos a nível mundial. Mas é aqui que esta atração para o interior pode ser feita, porque é aqui que os interessados estão e com os quais é possível estabelecer uma ligação e mostrar as vantagens de trabalhar a partir do interior do país. Como é lógico, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, veio logo dizer que Lisboa é o melhor sítio para trabalhar e que pretende desenvolver em nesta cidade uma fábrica de unicórnios.

No início deste evento, o responsável pela WebSummit, Paddy Cosgrave, não deixou de referir que este acontecimento “é sobre estabelecer relações”, mas para que estas ligações se estabeleçam é necessário que as presenças de quem pretender captar pessoas para os seus concelhos se mexa e esteja aqui presente, caso contrário a atração será sempre Lisboa e apenas Lisboa.

Este é o potencial de um acontecimento como WebSummit que, embora tenha lugar em Lisboa, pode ser um ponto de contacto entre todas as pessoas que queiram nele participar e dizer ao que vêm. Como várias vezes se tem escrito por aqui, o interior de Portugal só se pode desenvolver com pessoas que têm três características: ideias, competência e contactos. Os diferentes participantes na WebSummit têm algumas destas características, por isso é mais do que necessário aproveitá-los.


A.M. Santos Nabo

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