O PCP em Montemor: Um tributo aqueles que foram assassinados


Germano Vidigal

Em 1925 veio para Montemor com apenas 12 anos de idade o eborense Germano Vidigal para tentar ganhar a vida. Como muitos outros da sua geração, conheceu o trabalho duro e a sobrevivência dificil. Mas também consolidou uma firme consciência de classe e sólidas convicções revolucionárias.

Conseguiu trabalho na oficina de latoaria do Senhor Simão Pisco, no gaveto da Rua do Espírito Santo com a Rua da Parreira, que hoje tem o seu nome. Membro do Sindicato da Construção Civil, integrou em data que se desconhece a primeira Comissão Local de Montemor-o-Novo do PCP.

A organização partidária no Alentejo conheceu um desenvolvimento extraordinário com a reorganização de 1940/1941. Já em 1942 têm lugar importantes lutas do proletariado agrícola, que se vão estender pelos anos 1943-45.

Muitas terras alentejanas passaram a figurar na história como símbolos heróicos pelas muitas lutas do proletariado agrícola contra a opressão, pelo pão, pela terra, contra o fascismo e pela liberdade. Montemor-o-Novo é uma delas.

Em 1945, os trabalhadores de Montemor-o-Novo e terras circundantes, correspondendo ao apelo do PCP para que se desenvolvessem acções contra a fome, travaram importantes lutas: manifestações, concentrações junto à Câmara Municipal e à Casa do Povo. No dia 20 de Maio, os trabalhadores declaram-se em greve e concentram-se junto à Câmara Municipal exigindo aumento de salários, fornecimento de géneros e trabalhos públicos para combater o desemprego.

A repressão desencadeada pela GNR, sob a direcção da PIDE, é brutal. Mais de 1500 trabalhadores são presos e metidos na Praça de Touros. À frente da luta estava a organização local do Partido, encabeçada por Germano Vidigal, que é preso e levado para o posto da GNR, onde dois conhecidos torcionários da PIDE, Barros e Carrilho, tentaram, em vão, obter dele informações: «cortaram-lhe as costas a cavalo-marinho, provocaram-lhe profundas feridas na cabeça e no rosto, aplicaram-lhe socos no estômago e no fígado, torceram-lhe os testículos, espezinharam-no, e projectaram-no contra a parede da sala». Germano Vidigal não falou! Morreu no dia 28 de Maio de 1945 com 32 anos de idade. Germano Vidigal foi um exemplo de coragem revolucionária, e de fidelidade ao seu Partido, o PCP.


José Adelino dos Santos

José Adelino dos Santos nasceu na freguesia de Santiago do Escoural, em 25 de Outubro de 1912. Filho de trabalhadores rurais seguiu a actividade dos pais, exercendo as funções de manajeiro. No início da década de 40 aderiu ao Partido Comunista Português. Destacou-se na organização do partido em Montemor-o-Novo, na divulgação de imprensa clandestina, em actividades culturais, em acções reivindicativas pela subida de salários e melhorias das condições de vida e no apoio a familiares de presos políticos. Foi preso, pela primeira vez, em 1945 e esteve três meses nas prisões do Aljube e de Caxias. Voltou a estas duas prisões quando foi novamente detido em Julho de 1949. Julgado em Fevereiro de 1950, foi condenado a vinte meses de prisão em Peniche. No entanto, por terem sido aplicadas medidas de segurança, ficou em liberdade condicional até 2 de Agosto de 1956.José Adelino dos Santos morreu em 23 de Junho de 1958 com 46 anos de idade, na sequência de uma manifestação, da qual fora um dos organizadores, contra a fraude eleitoral, que tivera lugar semanas antes, e contra o custo de vida, em que eram ainda reivindicados melhores salários. Foi atingido na nuca por um tiro disparado pela GNR quando se contava entre os manifestantes que clamavam “Queremos trabalho e pão”.

Em 1986, por iniciativa da União de Resistentes Antifascistas Portugueses – URAP, foi erigido no local onde tombou um memorial em sua homenagem, composto por um bloco de granito partido ao meio.


José Geraldo Caravela e António Maria do Pomar Casquinha


Com o 25 de Abril, a Reforma Agrária surge como desenvolvimento lógico das tradições de um povo, que há muito se distinguira pela luta por melhores condições de vida. Em 1979 existiam no concelho 23 UCPs e Cooperativas Agrícolas.

No decurso do contestado processo de entrega de terras aos proprietários, perderam a vida na Herdade de Vale de Nobre, em 27 de Setembro de 1979, os trabalhadores agrícolas, José Geraldo Caravela e António Maria do Pomar Casquinha, um jovem com apenas 17 anos de idade, assassinados pela GNR.

Os dois trabalhadores, Casquinha e Caravela, eram membros da Unidade Colectiva de Produção “Salvador Joaquim do Pomar”, instalada no Escoural, e realizavam uma acção de solidariedade com os trabalhadores da Cooperativa Bento Gonçalves, em S. Cristovão, quando foram assassinados.

José Geraldo Caravela nasceu em Santiago do Escoural em 26 de Março de 1922. Era militante do Partido Comunista Português.

António Maria do Pomar Casquinha nasceu em Santiago do Escoural em 9 de Setembro de 1962. Era militante da Juventude Comunista Portuguesa.

Milhares pessoas vindas de todo o País estiveram presentes nos seus funerais.

Os nomes destes mártires estão imortalizados em ruas do concelho de Montemor-o-Novo, e em outros espaços públicos de diversas localidades do País.

Em 27 de Setembro de 2014 foi inaugurado em Santiago do Escoural um memorial em sua homenagem da autoria de J. A. Monginho.


Tributo aqueles que foram presos e torturados


Segundo António Gervásio, a PIDE prendeu mais de 120 montemorenses. Como é humanamente impossível fazer referência a todos eles, optei por aqueles que mais se destacaram e como tal, foram distinguidos com a Medalha de Honra “Liberdade, Progresso e Justiça Social”, pela Câmara Municipal de Montemor-o-Novo

João Joaquim Machado

Nasceu a 14 de Setembro de 1921, em S. Mateus, Freguesia de N.ª Sr.ª da Vila, em Montemor-o-Novo. Filho de uma família de pequenos agricultores (seareiros), inicia a sua vida activa na agricultura, com 7 ou 8 anos, junto do seu pai e dos irmãos mais velhos. Aos 14 anos de idade já se manifestava contra a Guerra Civil de Espanha e contra o Regime Fascista em Portugal. Filia-se no Partido Comunista Português em 1943 com 22 anos de idade, iniciando dessa forma a sua actividade política. Foi preso pela primeira vez em 1945, depois de ter participado activamente nas Jornadas por melhores salários para os Trabalhadores Agrícolas, tendo sido levado para a prisão de Caxias. Em 1947, fruto das lutas por trabalho e contra a fome e miséria que se vivia nas famílias dos Trabalhadores Rurais, foi preso pela segunda vez e levado para o Aljube - Caxias. Em 1949 na sequência da Campanha Eleitoral, em que a Oposição Democrática apresentou o General Norton de Matos, volta a ser preso enquanto activista nesta campanha, passando pelas prisões do Aljube, Caxias, Peniche e Setúbal. É preso uma quarta vez, em 1958, quando participava numa manifestação de protesto pela Burla Eleitoral, que fez com que o General Humberto Delgado não fosse eleito e a Ditadura Fascista continuasse. Em 1961, quando participava activamente nas Jornadas pelas 8 Horas de Trabalho nos campos e quando a Guarda Nacional Republicana, acompanhada pela PIDE, o tentava prender, assaltando a sua casa e a do seu irmão, na madrugada de 5 de Maio, consegue fugir, passando um ano na clandestinidade. Volta a ser preso em 1962, em Vila Viçosa, tendo sido levado para o Aljube, Caxias e Peniche, onde permaneceu 6 anos. Ao longo da sua luta de resistência antifascista esteve preso durante cerca de 10 anos, tendo sido barbaramente torturado e passado 10 meses incomunicável.

Em 1974 tornou-se funcionário do Partido Comunista Português. Em 1976 foi Candidato à Assembleia Constituinte. Fez parte desde o início da União dos Resistentes Antifascistas Portugueses, das Comissões de Base de Saúde e das Comissões de Moradores. Reformou-se em 1986 mas continuou sempre com a sua activida política.

A 25 de Abril de 2000, o Município de Montemor-o-Novo atribuiu a João Joaquim Machado a Medalha de Honra “Liberdade, Progresso e Justiça Social”.

Também a Junta de Freguesia de Cabrela prestou homenagem a este antifascista. O seu nome fica perpetuado numa rua da bonita Vila de Cabrela.

António Gervásio

Nasceu no lugar de São Mateus, freguesia de Nossa Senhora da Vila, concelho de Montemor-o-Novo em 25 de Fevereiro de 1927. A sua profissão foi de operário agrícola.

Ingressou no Partido Comunista Português em 1945, aos dezoito anos de idade. Em 1947 foi preso pela primeira vez, tendo sido condenado a dois meses de prisão. Em 1960 foi novamente preso e colocado no Forte de Caxias, tendo sido um dos oito participantes da famosa fuga de Dezembro de 1961, passando então à clandestinidade. A 4 de Dezembro de 1961, em pleno dia, 10 da manhã, oito destacados militantes comunistas, rompendo a forte segurança policial, fogem com êxito do Forte de Caxias num velho «Mercedes» à prova de bala, oferecido por Hitler ao ditador Salazar. Cerca de 10 minutos depois, os oito fugitivos estavam em Lisboa. Cada um seguiu o seu rumo a abraçar as novas tarefas do Partido. O «Mercedes» ficou a descansar na rua Arco do Carvalhão até a Pide o ir buscar... Foi grande o impacto nacional desta fuga. As pessoas ficaram impressionadas: como foi possível, em pleno dia, num pátio interior do forte rodeado de taludes, GNR’s, carcereiros armados e sempre com os olhos postos nos movimentos de cada preso, chegar um automóvel e, num abrir e fechar de olhos, oitos presos desaparecerem sem os guardas terem tempo para compreender o que se estava a passar? É natural que surjam tais interrogações. Sem dúvida que jogou muito o factor surpresa e a rapidez – agir tão rápido que os guardas não tivessem tempo de pensar que se tratava de uma fuga. Cada fuga tem a sua história. A fuga de Caxias não foi uma realização ao acaso, nem uma aventura. Ela envolve um longo trabalho colectivo (cerca de um ano), paciente, minucioso, um conhecimento profundo de variadíssimos detalhes.

Em 1971 foi condenado a catorze anos de prisão e encarcerado no Forte de Peniche tendo sido libertado em 27 de Abril de 1974, como parte da vaga de presos políticos soltos na sequência da Revolução dos Cravos ocorrida dois dias antes. Durante a ditadura passou igualmente pela Cadeia do Aljube, tendo estado preso, no total, durante cerca de cinco anos e meio. Foi vítima de violência física e torturado após as prisões de 1960 e 1971, tendo neste último caso sido impedido de dormir durante um período de dezoito dias e noites. Participou na organização de várias manifestações de trabalhadores no sul do país, por exemplo nas greves de Maio de 1962 dos trabalhadores agrícolas do Alentejo e Ribatejo, que levaram à introdução do regime das oito horas.

Foi membro do Comité Central do Partido Comunista Português durante mais de quatro décadas, entre 1963 e 2004, e fez parte da Direcção da Organização Regional de Évora daquele Partido até 2006. Também foi membro da Comissão Política do Comité Central entre 1976 e 1990, e foi eleito, desde o XV Congresso, em 1996, até ao XVI Congresso, em 2000, para integrar a Comissão Central de Controlo. Em 2017 lançou o livro “Histórias da Clandestinidade” através da Editorial Avante.

Exerceu o cargo de deputado durante a Assembleia Constituinte. Na primeira legislatura, pelo Círculo de Portalegre, e nas II e IV legislaturas, pelo Círculo de Évora, voltou a representar o PCP na Assembleia da República.[Também fez parte da Assembleia Municipal de Montemor-o-Novo durante vários mandatos.

A 25 de Abril de 2000, o Município de Montemor-o-Novo atribuiu a António Gervásio a Medalha de Honra “Liberdade Progresso e Justiça Social”. No dia 10 de Janeiro de 2020 este antifascista faleceu, com 92 anos de idade.


Maria Lourença Cabecinha

Maria Lourença Calção Cabecinha nasceu em 17 de Março de 1933 na antiga freguesia de S. Romão, concelho de Montemor-o-Novo. Filha única de operários agrícolas, começou a trabalhar fora de casa aos doze anos, sempre de sol a sol, e nunca foi à escola porque vivia muito longe da mesma. As primeiras letras foram aprendidas com a ajuda do pai (dos poucos camponeses que sabia ler), e muita vontade própria: «depois de largar o trabalho andava uma hora e meia até chegar a casa; e só depois de comer e ajudar a mãe na lida da casa, antes de se deitar ia aprender a Cartilha de João de Deus, à luz do candeeiro de petróleo». A instrução primária só seria feita quando saiu da cadeia.

Maria Lourença Cabecinha entrou para o Partido Comunista em 1948, quando tinha apenas 15 anos. Em 1952, passou à clandestinidade com o companheiro António Gervásio, vindo a ser presa em 1964. Cumprida a pena de quase cinco anos e meio, regressou temporariamente a Montemor onde permaneceu nove meses junto da família. Em Julho de 1970, reingressou na clandestinidade e aí se manteve até Abril de 1974.

Passou o dia 25 de Abril de 1974 a policopiar propaganda do 1.º de Maio na casa clandestina da Damaia. Apenas abandonou aquela casa no dia 28 de Maio. Em liberdade, retomou a militância política e partidária de sempre. A 25 de Abril de 2000, o Município de Montemor-o-Novo atribuiu a Maria Lourença Calção Cabecinha, a Medalha de Honra “Liberdade Progresso e Justiça Social”.


O PCP de Montemor


Pelo facto de o Partido ter vivido na clandestinidade mais de meio século, pouco ou nada se sabe sobre o historial da primitiva Comissão Local do PCP da qual Germano Vidigal fez parte, e também das posteriores Comissões Concelhias, além do relatado por António Gervásio no seu livro “Histórias da Clandestinidade”. Mas, o pouco que está referido neste texto, descreve algumas actividades levadas a efeito pelos comunistas montemorenses, durante a vigência da Ditadura.

Após a Revolução dos Cravos, os responsáveis pelo Partido conseguem negociar o trespasse do “Bar Alentejano”, um antigo café reservado à elite montemorense (que após a abertura do “Almansor”, foi decaindo progressivamente), e instalaram no histórico café o Centro de Trabalho.

No início da década de oitenta, o Partido adquiriu um prédio na Rua 5 de Outubro n.º 11, que após obras de adaptação, passou a acolher o Centro de Trabalho.

Não obstante o PCP ter uma forte implantação no nosso concelho, nunca concorreu sozinho às eleições autárquicas. Fê-lo sempre coligado, primeiro na Coligação Frente Eleitoral Povo Unido (FEPU), depois na Aliança Povo Unido (APU), e ultimamente, na Coligação Democrática Unitária (CDU).

A nível de trabalho autárquico, iniciado pela Comissão Administrativa, em 1974, penso que o mesmo deve ser reconhecido. A vasta lista que se segue, colocada por ordem alfabética, é prova desse merecimento:

Aeródromo da Amendoeira, Arquivo Municipal, Biblioteca Municipal, Caminhos, Castelo – requalificação de espaços, Cemitério da Courela da Pedreira, Centros Culturais, Centros de Convívio, Convento da Saudação – reabilitação, Ecopista do Montado, Electrificações, Estações de Tratamento, Estradas, Galeria Municipal, Jardim dos Cavalinhos – requalificação, Jardim Público – requalificação, Loteamento para Pequenas Oficinas, Loteamentos Municipais, Obras diversas no âmbito do PEDU, Oficina da Criança, Parque de Exposições Mercados e Feiras, Parque Desportivo com relva sintética, Parque Urbano com Fonte Cibernética, Pavilhão Gimnodesportivo, Piscinas Cobertas, Piscinas Recreativas, Pista de Atletismo de Tartan, Plano Director Municipal, Plano de Urbanização, Polidesportivos, Pré-Primárias, Redes de Águas e Esgotos, Ruas, Trabalho Sócio-Cultural, e Zona Industrial da Adua, entre outros.


Augusto Mesquita

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