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Luis SepĂșlveda em Montemor

  • 18 de abr. de 2020
  • 3 min de leitura

O escritor Luis SepĂșlveda, que faleceu no passado dia 16 de abril, esteve em Montemor-o-Novo a 15 de setembro de 2003, para celebrar o terceiro aniversĂĄrio da livraria Fonte de Letras. Os repĂłrteres da Folha estiveram lĂĄ e revelaram o que se passou naquela noite.



Este ano S. Pedro foi amigo, enviou bom tempo para a noite de 15 de Setembro, e o Largo do “Chafariz do Besugo” encheu-se para acolher a festa do terceiro aniversário da Livraria Fonte de Letras. Assim, todos pudemos estar bem à vontade, comprar livros, conviver com escritores e passar um óptimo final de dia.

Helena Santos apresentou a festa referindo que este terceiro aniversĂĄrio iria ser vivido de forma diferente. Assim, todos os meses, a Livraria irĂĄ trazer a Montemor personagens de revelo, que podem ser escritores, artistas, ou mesmo polĂ­ticos para apresentar os seus trabalhos e conviver com os leitores da Fonte de Letras.

De seguida, foi apresentado o Ășltimo nĂșmero da revista EgoĂ­sta, tendo o designer Henrique Cayatte referido que a revista â€œĂ© um produto editorial completamente novo” revelando ainda que “sĂł faz sentido fazer uma revista para inovar”. O tema deste nĂșmero sĂŁo “Os HerĂłis”, tendo a jornalista Ana Sousa Dias referido que aparecem na revista “duas heroĂ­nas que tiveram a ideia de efectuar uma aventura extremamente corajosa”, numa clara referĂȘncia ao trabalho sobre a Livraria Fonte de Letras e as suas proprietĂĄrias que estĂĄ incluĂ­do nesta edição da EgoĂ­sta.

A estrela da festa foi LuĂ­s SepĂșlveda que brindou Montemor com a sua presença, a convite da Livraria. A apresentação do livro “O General e o Juiz” foi o mote que conduziu os presentes a reviverem os ideais e as acçÔes que foram desenvolvidas na companhia de Salvador Allende, nos “mil dias felizes” que precederam o golpe de estado que instaurou a ditadura no Chile.

“O General e o Juiz” Ă© um segundo nome para este livro militante e de intervenção, que LuĂ­s SepĂșlveda escreveu entre 1998 e 2000, aquando da detenção do General Pinochet em Londres. SĂŁo textos que nĂŁo querem “perdoar nem esquecer”, mas sim relembrar a tomada do poder no Chile pelo General Augusto Pinochet, com a ajuda da CIA que foi consumada no dia 11 de Setembro, em 1973. Instaurando-se a repressĂŁo pela anulação temporĂĄria da democracia que veio a vitimar milhares de cidadĂŁos livres. Na introdução da obra pode ler-se que “Este livro contĂ©m uma selecção de artigos escritos durante essas jornadas de luta, publicados em diversos jornais e revistas do mundo, reproduzidos em milhares de pĂĄginas na Internet, lidos por estaçÔes de rĂĄdio chilenas e impressos em panfletos distribuĂ­dos pelas ruas de Santiago. Juntamente com Ariel Dorfman assumimos a responsabilidade de responder Ă s infĂąmias da direita chilena e aos despropĂłsitos e mentiras do governo chileno. AgitĂĄmos, escrevemos artigos verdadeiramente agitadores, subversivos, porque a verdade Ă© sempre subversiva”.

Neste “memorial dos anos felizes”, a que o autor deu voz no adro da Fonte de Letras, afirma que “os mil dias do Governo de Unidade Popular foram muito duros, intensos, sofridos e ditosos. DormĂ­amos pouco. VivĂ­amos em todo o lado e em lado nenhum. Tivemos problemas sĂ©rios e procurĂĄmos soluçÔes. Nesses mil dias, para todos aqueles e aquelas que tivemos a honra de ser militantes do processo revolucionĂĄrio chileno, foram dias felizes, e essa felicidade Ă© e serĂĄ sempre nossa, permanece e permanecerĂĄ inalterĂĄvel”.

Neste fim de noite, SepĂșlveda reviveu, em sintonia com a plateia, o tempo a seguir ao passado, recordou Allende, de primeiro nome Salvador, e repovoou de exemplos vividos a força anĂłnima que iluminou com a esperança e o trabalho “os mil dias mais plenos, belos e intensos” feitos por aqueles que ficam para a histĂłria do Chile.

Ainda e sempre recordando Salvador Allende, SepĂșlveda discorre que “quando, nos momentos mais duros dos nossos dias, a provocação do fascismo da direita, do imperialismo ianque, fazia com que a ira se instalasse perigosamente nos nossos Ăąnimos, o companheiro Presidente aconselhava-nos: VĂŁo para as vossas casas, beijem as vossas mulheres, acariciem os vossos filhos.”

Pensando o passado a esta distñncia reafirmou que “agora, a trinta anos da grande traição, que a proximidade dos nossos, que a recordação dos que faltam, e o orgulho de tudo o que fizemos sejam os grandes convocantes do que devemos lembrar. Que as palavras Companheira e Companheiro soem como uma carícia, e bebamos com orgulho o vinho digno das mulheres e dos homens que deram tudo, que deram tudo pensando que não era o suficiente”.

No final do aniversĂĄrio o habitual “ParabĂ©ns a VocĂȘs” foi substituĂ­do pela “Rosa Enjeitada”, presente de Lula Pena para esta festa das letras.

Texto: José Manuel Nunes Nabo e A.M. Santos Nabo

Foto: MF Novo



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