Amor e Vinho… em tempo de pandemia



Foto:Ana Baião


Aconteceu na Cuba. No sábado que antecedeu o São Martinho. Na Adega do Canena, - antiga Adega do Barreto desde os anos 30. Foi o lançamento de “Amor e Vinho. Da Poesia Luso-Árabe à Nova Música Portuguesa (Séculos XI/XXI)”, de Eduardo M. Raposo.

Foi um dia muito especial, fraterno e emotivo, que a Mª Paula Santos definiu assim: “Belo dia passado na Cuba com os amigos é sempre bom”, com a presença de muitos e bons amigos: o Mário João – amigo de tenra infância – e a Fátima, vindos da Porto, a Ana Baião, fotojornalista do semanário Expresso, que está na Cuba – é assim quando nos referimos à Cuba do Alentejo – a realizar um levantamento fotográfico sobre as tabernas e o Vinho de Talha. Assim como a amiga Paula Santos, directora da Biblioteca Municipal José Saramago em Beja, que fez a apresentação da obra e a jornalista da Rádio Voz da Planície, Ana de Freitas.

E os amigos da Cuba e das redondezas: José Roque, presidente da MODA – Associação do Cante Alentejano, cantador e produtor de Vinho de Talha, Raúl Amaro, presidente da Junta de Freguesia de Vila Ruiva – que pôs o autor em contacto com o João Canena, possibilitando a sessão naquele espaço único, assim como o apoio deste à edição. A Maria João Roque, presidente da Associação de Empresários da Região da Vidigueira, Francisca Bicho, presidente da Associação Cultural Fialho de Almeida, entre outros. E também os familiares de João Canena – o pai, homónimo, a mãe, D. Virgínia e o irmão Gonçalo – assim como meu irmão Carlos e a Elsa.

Outros justificaram a ausência pelas mais diversas razões: Janita Salomé, Francisco Fanhais, Ana Paula Amendoeira, Cláudio Torres, Alex Gandum, Manuel Macaísta Malheiros, António Ramos, João Pereira Santos, João Couvaneiro e outros.

A sessão abriu com palavras do editor, Fernando Mão de Ferro, que referiu o espaço original onde decorria o lançamento do livro, facto que saudava, fazendo ainda menção ao percurso do autor enquanto historiador - sempre com a preocupação de falar, não só, mas muito ao Alentejo, sempre o Alentejo - que a Colibri edita desde 1999, com cinco dos sete títulos do autor.

“Este tempo e este vagar de sublinhar o significado do nosso património”

Seguiu-se Maria Paula Santos, que numa intervenção de excelência, traçou o percurso do autor: (…) “A linha editorial da Colibri é muito forte, pois reforça a nossa identidade. (…) Uma das questões importantíssimas, para além de investigar e editar, prende-se com esta missão, e o Eduardo refere na introdução, que é de devolver a história, devolver a memória e a identidade às pessoas, este legado que lhes pertence por direito próprio.” Referiu o percurso das realizações ligadas ao Alentejo – CEDA e as revistas Memória Alentejana, Alma Alentejana, os livros e exposições sobre o Canto de Intervenção e as três biografias realizadas.

Referiu o percurso relacionado com a poesia luso-árabe e Almutâmide – espectáculos, um festival, roteiros, um guião para um filme – iniciado com uma comunicação em 2008 na Universidade de Évora, editada na Memória Alentejana, destacando:


Capa do livro, por Raquel Ferreira


“Este tempo e este vagar que o Eduardo imprime àquilo que faz. Esta missão de destacar e sublinhar e trazer à memória aquilo que pertence à nossa identidade, sublinhar o significado desse nosso património pessoal, social e cultural, missão que cabe aos historiadores; é isso que o Eduardo tem feito, mas com todo o tempo. E é muito curioso quer o Amor quer o Vinho, exigem esse tempo e esse vagar (…) não é uma coisa imediata.”

“A relação, que interessa muito ao Eduardo, entre a poesia e a música, resgatada ao longo dos tempos, surge neste livro. Mas quando estas duas linguagens se encontram, provoca naqueles que usufruem desse encontro um outro significado, uma outra dimensão. O Eduardo fala do sentido que a música ganha quando se encontra com a poesia e que este ganha quando se encontra com a música; esse encontro transforma a vida das pessoas que dá significado a uma época - exemplos: Canto de Intervenção, “PREC Cantar a Revolução no Alentejo”.

E se cada um de nós tem uma música da nossa vida, juntar a poesia à música (…) é uma outra dinâmica, muito mais forte, muito mais transformadora, quer da realidade individual, quer social.”

Este livro, refere, “vai à génese da nossa poesia lírica e segue ao longo da nossa História, nomeadamente exemplificando, com breves biografias, de Janita Salomé, Vitorino, Rui Veloso, Sérgio Godinho, Trovante, Luís Represas, Fausto, Brigada Victor Jara, Jorge Palma, João Afonso. Esta história que o Eduardo nos conta do Amor e do Vinho, esta relação tão intensa da poesia e da música atravessa a História que nos define hoje e isso é muito importante. (…) porque, como ele próprio diz: “Cantar é um acto de celebrar a vida” (…)

Termino lendo um excerto na conclusão, que define muito aquilo que o Eduardo é na forma como nos passa esta missão de nos trazer à nossa memória e sublinhar na nossa memória esta nossa identidade:

‘E assim termino, sentado, como um bom alentejano, à soleira da porta ao final do dia, bebendo um divino Vinho de Talha, dois mil anos depois da sua génese romana, entre Cuba e Vidigueira, porque como escrevi de início, numa soleira da porta, numa adega ou no universo, neste Sul mediterrânico, onde o Sol dá o tom certo da sensualidade dos corpos e o vinho produz a languidez da libertação dos sentidos, onde Amor e Vinho marcaram nos últimos mil anos a nossa poética.”

Quando interviemos falámos de como este sétimo livro foi um parto difícil… e longo, de editar, não de realizar, agradecendo a todos(as) os(as) bons amigos(as) presentes e apoiantes desta obra e de como a edição desta obra poderá contribuir para a candidatura em curso do Vinho da Talha a Património da Humanidade, manifestando a gratidão de quem assim viabilizou a edição – os já referidos e a Junta das Freguesias de Charneca de Caparica e Sobreda, nas pessoas dos amigos Pedro Matias e Alda Fidalgo, presidente e vogal da cultura, respectivamente.

João Canena, em breves palavras, congratulou-se por acontecer um evento cultural deste género na sua Adega e mostrou-se disponível para continuar a apoiar a cultura. Seguiu-se um breve momento de poesia, com Ana Pereira Neto, Mário João e nós.

Entretanto deu-se a abertura de duas talhas: uma de vinho branco e outra de vinho tinto, que saboreámos encantados.

Durante um animado jantar no “País das Uvas”, a SIC dava a notícia: estava confirmada a vitória de Biden. O dia acabava em beleza.

Eduardo M. Raposo

eduardomraposo0@gmail.com

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