O 25 de Abril é sinónimo de liberdade



Montemor-o-Novo sobressai ao longo da História, como pioneiro da luta dos trabalhadores por condições de vida condigna e pela conquista da liberdade.

Tão longas e determinadas foram as lutas dos operários e dos trabalhadores agrícolas montemorenses. As jornadas de Setembro de 1918, contra a carestia de vida, de Maio de 1945 para exigir o aumento das jornas, trinta escudos para os homens e vinte escudos para as mulheres, que até aí ganhavam metade dos homens, de Junho de 1958 para protestarem contra a fraude eleitoral e pela exigência de trabalho, e de Maio de 1962 pelas 8 horas de trabalho e por jornas de quarenta escudos, forjaram numerosos combatentes antifascistas, como é o caso de António Joaquim, José Gomes, e Raul José Sabino, mortos a tiro pela força armada, no Terreiro de S. João de Deus em 15 de Setembro de 1918, Germano dos Santos Vidigal, assassinado pela PIDE a 9 de Junho de 1945, no Posto da GNR de Montemor-o-Novo. Os algozes disseram que se enforcou, mas as marcas de tortura eram demonstrativas do fim que teve. Natural de Évora trabalhava em Montemor-o-Novo como latoeiro na oficina de Simão Pisco, sita na Rua da Parreira, que hoje possui o seu nome, e José Adelino dos Santos, integrado na concentração que protestava contra a fraude eleitoral que derrotou o General Humberto Delgado e exigia ao Presidente da Câmara, pão e trabalho, assassinado em 23 de Junho de 1958 pela GNR, junto ao edifício dos Paços do Concelho. A União de Resistentes Antifascistas Portugueses – URAP, inaugurou em 1986 no local onde tombou, um memorial em sua homenagem.


O sinal – Grândola Vila Morena


Fruto das lutas acima referidas e de outras ocorridas de norte a sul do país, e depois das malogradas tentativas de golpe de estado, ocorridas em Beja em Dezembro de 1961 e nas Caldas da Rainha em 16 de Março de 1974, os portugueses conquistam a desejada liberdade. Faltavam cinco minutos para as vinte e três horas de 24 de Abril de 1974, quando o Rádio Clube Português transmite a canção, “E depois do Adeus”, que Paulo de Carvalho interpretara em 6 de Abril, no “Festival da Eurovisão”, a qual dá sinal às unidades da Região Militar de Lisboa, de que podem iniciar os preparativos para a acção. Vinte minutos depois da meia-noite, a Rádio Renascença, leva a todo o país, a certeza de que o primeiro sinal via rádio havia sido dado e que, portanto, a situação era irreversível: às três horas da manhã tocaria a alvorada para que o regime fascista nascido em 28 de Maio de 1926 fosse deposto. “Grândola, Vila Morena” na voz de Zeca Afonso, um dos símbolos da resistência à opressão, foi a “senha” escolhida pelos homens das Forças Armadas. Pouco depois das três horas começam a dar-se as primeiras ocupações. O Rádio Clube Português é o primeiro a ser tomado, já que vai ser o órgão oficial de informação, ganhando, dessa forma, os galões de “Emissora da Liberdade”. Mais tarde e depois de conversações no Quartel do Carmo, um “DC-6” da Força Aérea transportaria Américo Tomás e Marcelo Caetano para o privilégio do exílio.

A população montemorense, não obstante ter sido apanhada de surpresa pelo Movimento das Forças Armadas, depressa se identificou com os seus objectivos. As manifestações espontâneas que irromperam pelas ruas da vila foram explosões de contentamento e de apoio aos militares, que devolveram ao povo a ambicionada liberdade. Nos inúmeros plenários que se seguiram organizaram-se comissões para tudo e mais alguma coisa.


António Gervásio é libertado


O preso político António Gervásio, que participou na histórica fuga do Forte de Caxias em 4 de Dezembro de 1961, utilizando o automóvel blindado oferecido por Hitler a Salazar, e que se encontrava detido no Forte de Peniche, foi libertado no dia seguinte à Revolução dos Cravos. A Praça da República e parte do Jardim Público, a transbordarem de povo, homenageou o antifascista neste seu “regresso definitivo” à terra que o viu nascer.

Oito dias depois, Montemor-o-Novo assiste à maior manifestação que alguma vez aqui se realizou – comemorou-se o 1.º de Maio em Liberdade.


A Reforma Agrária


Com o 25 de Abril, a Reforma Agrária surge como prolongamento lógico das tradições de lutas de um Concelho que há muito se distinguira pela sua combatividade, e que frequentemente se empenhara e organizara para conquistar melhores condições de vida. Em 1979 existiam no concelho, 23 UCPs e Cooperativas Agrícolas. No decurso do controverso processo de destruição da Reforma Agrária, perderam a vida na Herdade de Vale de Nobre, em 27 de Setembro de 1979, os trabalhadores agrícolas, José Geraldo Caravela, de 57 anos de idade e António Maria do Pomar Casquinha, de 17 anos de idade.

À data da Revolução do 25 de Abril, o concelho de Montemor-o-Novo vivia um processo de desertificação social, fruto da estagnação económica. A grande maioria da população dependia da actividade agrícola, dominada pelo sistema latifundiário.

Logo após o 25 de Abril, o povo ocupou as autarquias, expulsou delas os representantes do poder destituído e elegeu em plenários Comissões Administrativas. Com o Cine Teatro Curvo Semedo superlotado, foram eleitos para a Comissão Administrativa da Câmara Municipal, os seguintes democratas: Eng.º Alexandre Campos Romeiras (Presidente), Francisco Guerra Romeiras (Presidente substituto), Manuel João Passão, António Manuel Malhão, Dr. Manuel Maria Ferreira Cidade, António Antunes Pires, Diogo Abreu Fragoso Amado e Raul Figueira Berjana.

De imediato, inventariaram-se carências, ouviram-se reivindicações, avançou-se para as primeiras obras que contaram com a participação voluntária da população: instalou-se infra-estruturas de saneamento, abastecimento de água e energia eléctrica e incrementa-se rapidamente a construção de habitação própria através da CHE, que em Montemor-o-Novo optou o nome de “Alentejana”.


Poder local democrático


Delineava-se assim o Poder Local Democrático que viria a ser consagrado na Constituição Portuguesa em 1976. As primeiras eleições para os órgãos autárquicos tiveram lugar nesse ano e originaram a seguinte composição:

Ernesto Pinto Ângelo (Presidente) - FEPU, Manuel José Charrua (Vereador) - FEPU, Dr. Luís Manuel Capoulas Santos (Vereador) - PS, Dr. António Joaquim Moniz da Maia (Vereador) - FEPU, Custódio Manuel (Vereador) - FEPU, José Jacinto Vacas Bexiga (Vereador) - PS, Eng.ª Maria da Conceição Macau Coelho (Vereadora) – FEPU.

Antes das eleições para as autarquias, os portugueses participaram nas eleições para a Assembleia Constituinte. Estas foram as primeiras eleições livres com sufrágio universal realizadas no País, e registaram a mais elevada afluência de eleitores na história de Portugal: recensearam-se 6 231 372 portugueses, dos quais 5 711 829 foram às urnas. Uma percentagem de 91,2 %! Esta percentagem tem diminuído significativamente – nas eleições legislativas de 2019 a percentagem foi de 48,57 %, e nas presidenciais do corrente ano, a proporção desceu para os 39,24 %. Porque será?

As mulheres, que até aqui, estavam impedidas de participar na vida política do país, impossibilitadas de votar e de serem votadas, sentiam ainda na pele autênticas torturas psicológicas, como por exemplo: uma mulher casada, que tencionasse deslocar-se a Badajoz, estava impedida de o fazer, desde que não apresentasse na fronteira, uma autorização do cônjuge, transcrita em papel selado, e com a assinatura reconhecida pelo Notário. Com o 25 de Abril, as mulheres do meu país, conquistam a sua carta de alforria.

Pelo atrás referido, pelo muito que ficou por relatar, e porque com a Revolução de Abril o povo português conquistou a liberdade, a democracia, um amplo conjunto de direitos políticos, cívicos e laborais, necessários e imprescindíveis ao progresso do país e à melhoria das condições de vida da generalidade dos portugueses, termino com o célebre grito de liberdade – 25 de Abril sempre, fascismo nunca mais!


Augusto Mesquita


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