Da guerra na Ucrânia


Completam-se neste mês de agosto seis meses de guerra entre a Ucrânia e a Rússia, o que tem sido algo difícil de perceber, depois da Europa ter vivido um longo período de paz desde o fim da II Guerra Mundial, apenas interrompido pela guerra dos Balcãs, no início dos anos 90, resultante da desagregação da Jugoslávia.

A definição do termo guerra está bem explicado na obra ‘Da Guerra’, de Carl von Clausewitz, escrita no século XIX. “A Guerra não é mais do que um duelo a uma mais vasta escala. Se quisermos reunir num só conceito os inumeráveis duelos particulares de que a guerra se compõe, faríamos bem em pensar na imagem de dois lutadores. Cada um tenta, por meio da sua força física, submeter o outro à sua vontade; o seu objetivo imediato é o de abater o adversário a fim de o tornar incapaz de toda e qualquer resistência. A guerra é, pois, um ato de violência destinado a forçar o adversário a submeter-se à nossa vontade”. Ora quando olhamos para as imagens que todos os dias chegam através da televisão, esta definição com cerca de 150 anos mantém-se atualizada. Do lado russo, a situação é cada vez mais clara de tentar eliminar a Ucrânia do mapa através de uma ocupação forçada do seu território. Do lado ucraniano, a defesa faz-se na medida do possível, face à dimensão e às características do adversário, com uma forte ajuda dos membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), com os Estados Unidos a liderarem o processo.


Ucrânia


Antes da constituição da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), a Ucrânia tinha-se declarado uma república em 1917, com capital em Kiev, mas a partir de 1922 passou a integrar a URSS. A importância dessa integração é relevante porque é partir da Ucrânia que a Rússia abre caminho para o mar Mediterrâneo através do Mar Negro. Durante séculos toda esta região se dedicou à cultura de cereais e à pastorícia, sendo famosa pela ‘terra negra’ que faz da Ucrânia um dos maiores produtores de trigo da Europa. Após a integração na URSS foram postas a descoberto imensas riquezas mineiras como ferro, manganês e hulha que contribuíram para o seu desenvolvimento industrial. Durante a II Guerra Mundial a Ucrânia teve um papel relevante na resistência às tropas alemãs, de modo a garantir o abastecimento de cereais à URSS. O historiador Niall Ferguson afirma que “Hitler contemplava a integração dos Estados Bálticos no ‘Reich’ embora só depois de um processo gradual de germanização cultural.”

Vários líderes da URRS tiveram com a Ucrânia uma relação especial com foi o caso de Nikita Khrushchev, Lionid Brezhnev, Konstantin Chernenko e Yuri Andropov, apesar destas ligações não terem muita importância junto da população, uma vez que a URSS tratava a república como “uma colónia interna: os seus recursos naturais foram explorados e a sua população foi sujeita a uma vigilância apertada”, refere o historiador Tony Judt.

Com o colapso da URSS as repúblicas que a constituíam começaram a declarar a sua independência, com destaque para a Ucrânia que, tal como as repúblicas do Báltico, também apresentava um historial de independência, apesar da sua forte relação com a Rússia, por isso aqueles sentimentos acabaram por se manifestar na população e, em 1991, foi declarada a sua independência como um estado neutro.


Aproximação à NATO


Depois da queda da URSS, os Estados Unidos acabaram por emergir como a grande potência a nível mundial, enquanto o mundo assistia a uma degradação da situação económica e política na Rússia. Esta situação levou a um alargamento da Aliança Atlântica para outros países cada vez mais próximos da fronteira com a Rússia que se começou a sentir ameaçada.

A antiga secretária de estado do presidente George W. Bush, Condoleezza Rice, menciona nas suas memórias que esse alargamento era um teste à tolerância de Moscovo, embora refira que “através do estabelecimento do Conselho NATO-Rússia em 2002 nós estávamos a tentar demonstrar que a expansão da Aliança não tinha o significado de uma ameaça à Rússia, mas pretendia a melhoria e a estabilidade da cooperação militar na Europa”. Rice afirma mesmo que quando a Geórgia e a Ucrânia estavam a considerar avançar para a filiação no plano de ações, que poderia levar a entrarem na NATO, “o mecanismo de tolerância com a Rússia quebrou-se”.

Todavia, Mikhail Gobatchov, o último presidente da URSS, é claro quando se refere ao papel da expansão da Aliança Atlântica para o leste europeu afirmando que “nunca escondi a minha opinião: a decisão de expansão da NATO foi o maior erro estratégico do Ocidente, um passo para a destabilização da situação político-militar na Europa e fora dela”; e acrescenta que “a Rússia tinha todo o direito de exigir o respeito não apenas da letra, mas também do espírito dos acordos e compromissos assinados. A confiança mútua que emergira com o fim da Guerra Fria foi minada pela decisão, tomada alguns anos depois, de se expandir a NATO. Restou à Rússia tirar conclusões sobre esse facto.”

Com a chegada de Vladimir Putin ao poder soviético, a situação começou a inverter-se pelo que “a expansão e a reconstrução do Estado encorajaram Putin a reclamar o antigo estatuto da Rússia enquanto grande potência. Em conversações com o primeiro-ministro italiano em 2007, Putin afirmou abertamente a posição do seu país enquanto potência global: «a Rússia, com as suas capacidades económicas, políticas e militares a crescer no mundo, está a emergir como um concorrente – um concorrente que já havia sido descartado. O Ocidente quer pôr a Rússia numa qualquer posição predefinida, mas a Rússia encontrará por si mesma o seu lugar no mundo»”, refere o historiador Gregory L. Freeze.


Compreender a guerra


Tentar entender esta guerra com os olhos ocidentais não é uma tarefa fácil porque as referências culturais, políticas e ideológicas destes dois países não são iguais às da Europa Ocidental. Por um lado, é certo que a Ucrânia está, alegadamente, a tentar fazer um caminho no sentido dos valores do Ocidente, sendo reconhecida no mundo como um estado que está a ordenar os contactos económicos e culturais com a comunidade internacional. Por outro lado, o jornalista David Satter sublinha que “os ocidentais ficam confusos porque abordam a Rússia com um quadro de referências ocidental, sem perceberem que a Rússia é um universo baseado num conjunto completamente diferente de valores”; e acrescenta que “para entender a realidade russa, é necessário aceitar que os líderes russos são capazes de fazer explodir centenas de pessoas do seu próprio povo para preservarem o poder que têm. (…) Assim que se aceita que o impossível é realmente possível, a degradação dos anos de Ieltsin e a ascensão de Vladimir Putin ao poder passam a fazer sentido”.

Seis meses após a invasão por parte das forças russas, o caminho da ocupação da Ucrânia vai tomando forma, principalmente no sul do país, onde as conquistas parecem irredutíveis. Mas aquilo que está cada vez mais claro é que a guerra não está para terminar tão cedo porque nenhuma das partes pretende ceder. Do lado russo, é difícil de compreender a razão pela qual se pretende aniquilar um país soberano e integrá-lo à força na Rússia. Convém não esquecer que a iniciativa para a declaração da independência da Ucrânia em 1991 foi conduzida pelos comunistas ucranianos e não pelas fações mais nacionalistas, que concordaram que a soberania deste país implicava o direito ao seu próprio exército e às suas próprias leis. O referendo sobre a independência foi expressivo ao clarificar que 88 % da população pretendia uma completa rotura com Moscovo.

Do lado ucraniano, apesar das regiões agora ocupadas pelas forças soviéticas serem aquelas em que vivia uma maior parte da população de origem russa, a questão que se coloca é por que razão um país deve desintegrar o seu território para o ceder a outro? Assim, face às aproximações que já tinham sido feitas à NATO, os países membros desta instituição estão a fornecer armamento e ajuda à Ucrânia para que se possa defender dos ataques russos. Só que esta situação está a levar o conflito para uma escala cada vez mais europeia com todas as consequências que isso está a trazer.

Face à intensificação da guerra, é cada vez mais difícil cada uma das partes ceder sem se sentir humilhada pela outra parte, por isso, a guerra continua sem que se consiga vislumbrar um fim à vista.

O controverso Henry Kissinger, antigo secretário de estado do presidente Richard Nixon, referiu que “a questão agora será como acabar essa guerra. Quando acabar tem de se encontrar um lugar para a Ucrânia e tem de se encontrar um lugar para a Rússia – se não quisermos que a Rússia se torne num posto avançado da China na Europa.”



A.M. Santos Nabo

Agosto 2022

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